Segunda-feira, 12 de Maio de 2008

Macau, 1937 (IV)

 

   Por vezes pensava que aquelas súbitas e inexplicáveis mudanças de humor raiavam a insanidade. Sentia-se em muitas ocasiões transportado para um mundo onde nada mais existia senão insatisfação e tristeza. E uma imensa saudade de vidas que nunca tinha vivido.

   Parecia-lhe agora que as emoções da sua breve vida com Boubouka se sobrepunham à imagem de Liang, como se fossem uma projecção de momentos e sentimentos que nunca pensara partilhar, sequer, com Liang.  

   Deitou-se de olhos fechados na cama, como se estivesse exausto, como se a luz que entrara pelas gelosias lhe tivesse sugado as forças. Lembrou-se de abrir os olhos, mas não conseguiu resistir à paz proporcionada pela cegueira avermelhada das pálpebras fechadas. Deixou o tempo passar naquele mundo que decidira não ver. 

   Muito depois, abriu os olhos e viu a ventoinha parada, no tecto. Era uma visão estranha, aquela. Desde que chegara a Macau, habituara-se a ver as ventoinhas em constante movimento, no hotel. Das poucas vezes que as vira paradas, quando estava deitado, vira sempre as hélices alinhadas com os seus olhos, como que prolongando-se à esquerda e à direita. Agora, notava que estas hélices se alongavam da sua cabeça até aos pés, dando-lhe uma estranha sensação de desconforto. Era como se o medissem, como se fossem uma pequena fita métrica distorcida, encurtando-o e reflectindo aquilo que se passava dentro de si.

   Estranhou-se a si próprio, ao insistir nestas ideias estranhas. Nunca se perdera assim dentro de si.

   Ouviu o ribombar dos panchões. Levantou-se. Da varanda, via os intermináveis cordões de luz a estrelejarem, desaparecendo em sons que ecoavam pelas ruas até quase se perderem no mar.

   Em baixo, por entre a multidão, viam-se as hap ló pairando sobre as cabeças ou esquivando-se entre as dezenas de pernas e braços. Hap ló! Tinha que levar uma lembrança para Tchang! Tinha que lhe mostrar a sua gratidão pelo convite e desejar-lhe as maiores felicidades para o novo ano. Deveria levar uma daquelas caixas de doces tradicionais ou antes um terno enfeitado, como faziam todos os macaístas convidados por chineses?

   Para Liang seria fácil. Levar-lhe-ia algum dinheiro da sorte num pequeno envelope vermelho, como se fazia para as crianças e pessoas solteiras. Sorriu para si mesmo, corrigindo-se... Levar-lhe-ia algum lâi si num hong pau... Agora dava consigo a pensar nas duas línguas...

   Lembrou-se depois de uma tacinha em prata que havia comprado. Achara-a curiosa. Representava uma sampana. Só quando a virara é que se apercebera da sua particularidade. Havia sido feita em Hong Kong, por Wai Kee, a partir de uma moeda chinesa de prata. Um dólar. A base era constituída pela efígie de Chang Kai-Chek. Seria certamente uma maneira delicada de desejar um bom ano a Tchang, sem o insultar com qualquer lâi si, inapropriado para a sua idade ou o seu estatuto.

 

(Continua em http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/27201.html)

 

© Blog da Rua Nove


publicado por blogdaruanove às 23:59
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