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  <title>Ilusões Urbanas</title>
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  <description>Ilusões Urbanas - SAPO Blogs</description>
  <lastBuildDate>Sat, 10 May 2008 17:05:52 GMT</lastBuildDate>
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  <pubDate>Mon, 12 May 2008 22:59:22 GMT</pubDate>
  <title>Macau, 1937 (IV)</title>
  <author>blogdaruanove</author>
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  <description>&lt;p style=&quot;text-align: center&quot;&gt;&lt;img style=&quot;border-left-color: black; border-bottom-color: black; border-top-color: black; border-right-color: black&quot; alt=&quot;&quot; border=&quot;0&quot; src=&quot;https://farm4.static.flickr.com/2215/2480226845_1a6ee0afae.jpg?v=0&quot; /&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: center&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify&quot;&gt;   Por vezes pensava que aquelas súbitas e inexplicáveis mudanças de humor raiavam a insanidade. Sentia-se em muitas ocasiões transportado para um mundo onde nada mais existia senão insatisfação e tristeza. E uma imensa saudade de vidas que nunca tinha vivido.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify&quot;&gt;   Parecia-lhe agora que as emoções da sua breve vida com Boubouka se sobrepunham à imagem de Liang, como se fossem uma projecção de momentos e sentimentos que nunca pensara partilhar, sequer, com Liang.  &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify&quot;&gt;   Deitou-se de olhos fechados na cama, como se estivesse exausto, como se a luz que entrara pelas gelosias lhe tivesse sugado as forças. Lembrou-se de abrir os olhos, mas não conseguiu resistir à paz proporcionada pela cegueira avermelhada das pálpebras fechadas. Deixou o tempo passar naquele mundo que decidira não ver. &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify&quot;&gt;   Muito depois, abriu os olhos e viu a ventoinha parada, no tecto. Era uma visão estranha, aquela. Desde que chegara a Macau, habituara-se a ver as ventoinhas em constante movimento, no hotel. Das poucas vezes que as vira paradas, quando estava deitado, vira sempre as hélices alinhadas com os seus olhos, como que prolongando-se à esquerda e à direita. Agora, notava que estas hélices se alongavam da sua cabeça até aos pés, dando-lhe uma estranha sensação de desconforto. Era como se o medissem, como se fossem uma pequena fita métrica distorcida, encurtando-o e reflectindo aquilo que se passava dentro de si.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify&quot;&gt;   Estranhou-se a si próprio, ao insistir nestas ideias estranhas. Nunca se perdera assim dentro de si.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify&quot;&gt;   Ouviu o ribombar dos panchões. Levantou-se. Da varanda, via os intermináveis cordões de luz a estrelejarem, desaparecendo em sons que ecoavam pelas ruas até quase se perderem no mar.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify&quot;&gt;   Em baixo, por entre a multidão, viam-se as &lt;i&gt;hap ló &lt;/i&gt;pairando sobre as cabeças ou esquivando-se entre as dezenas de pernas e braços. &lt;i&gt;Hap ló&lt;/i&gt;! Tinha que levar uma lembrança para Tchang! Tinha que lhe mostrar a sua gratidão pelo convite e desejar-lhe as maiores felicidades para o novo ano. Deveria levar uma daquelas caixas de doces tradicionais ou antes um terno enfeitado, como faziam todos os macaístas convidados por chineses?&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify&quot;&gt;   Para Liang seria fácil. Levar-lhe-ia algum dinheiro da sorte num pequeno envelope vermelho, como se fazia para as crianças e pessoas solteiras. Sorriu para si mesmo, corrigindo-se... Levar-lhe-ia algum &lt;i&gt;lâi si &lt;/i&gt;num &lt;i&gt;hong pau&lt;/i&gt;... Agora dava consigo a pensar nas duas línguas...&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify&quot;&gt;   Lembrou-se depois de uma tacinha em prata que havia comprado. Achara-a curiosa. Representava uma sampana. Só quando a virara é que se apercebera da sua particularidade. Havia sido feita em Hong Kong, por Wai Kee, a partir de uma moeda chinesa de prata. Um dólar. A base era constituída pela efígie de Chang Kai-Chek. Seria certamente uma maneira delicada de desejar um bom ano a Tchang, sem o insultar com qualquer &lt;i&gt;lâi si&lt;/i&gt;, inapropriado para a sua idade ou o seu estatuto.&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: xx-small&quot;&gt;(Continua em &lt;/span&gt;&lt;a href=&quot;http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/27201.html&quot; rel=&quot;noopener&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: xx-small&quot;&gt;http://blogdaruaonze.blogs.sapo.pt/27201.html&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style=&quot;font-size: xx-small&quot;&gt;)&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: justify&quot;&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p style=&quot;text-align: left&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small&quot;&gt;&lt;b&gt;© Blog da Rua Nove&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <category>hap ló</category>
  <category>lâi si</category>
  <category>ficção</category>
  <category>chang kai-chek</category>
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